Tendo
residido por algum tempo nos Estados Unidos, a serviço profissional, aprimorou ali não
só os seus conhecimentos do inglês como também o gosto pela literatura profusa do país
de Tio Sam, em especial as obras relacionadas aos temas de sua preferência.
Sem qualquer pretensão de analisar a
obra completa de Miranda, podemos destacar quatro de suas opções temáticas:
cristianismo (leia-se teologia), mediunidade, regressão de memória e reencarnação.
Esta última, porém, parece estar muito à frente das outras, como atesta o prefaciador
de um dos seus livros: "Em Doutrina Espírita, o ponto que mais o atrai é a
reencarnação".(1) Mais do que isso, é também assunto freqüente em praticamente
toda a sua obra, pois, sempre que pode ele o introduz em reforço de seu pensamento.
Miranda não é um pesquisador do tipo
Ian Stevensson ou Hernani Guimarães Andrade. Enquanto estes se preocupam com a análise
dos fatos em seus detalhes comprováveis, quando trata da reencarnação Miranda se vale
habitualmente de pesquisa biográfica com apoio em bibliografia consistente, em que estão
presentes, inclusive, obras de história. É bem verdade que o seu livro mais denso sobre
o tema - "Eu sou Camille Desmoulins" - escrito em parceria com o sujet da
pesquisa, Luciano dos Anjos, conta com um outro tipo de apoio: a regressão de memória.
É também verdadeiro o fato de utilizar as experiências com regressão de memória em
outras obras sobre a reencarnação. Sua argumentação, entretanto, privilegia a
comparação de dados biográficos, no que é rigoroso se assim podemos nos expressar.
O livro referido merece uma certa
atenção, haja vista para as discussões que despertou quando de sua aparição no
mercado, em especial por alguns detalhes curiosos: Luciano dos Anjos, sujet e personagem
principal, é figura polêmica por suas preferências político-doutrinárias, em que se
arrolam o discutível gosto pelo francês Roustaing (aquele do corpo fluídico de Jesus) e
uma atuação extravagante no período em que esteve na Federação Espírita Brasileira.
Estes fatos levantaram suspeitas sobre o livro, mas é preciso reconhecer a seriedade de
Hermínio Miranda tanto na condução das pesquisas quanto na comprovação das
informações obtidas durante os transes. Aliás, a polêmica surgiu antes mesmo da
publicação do livro quando Luciano teria vetado a informação constante dos originais
de que, em transe, se opunha à teoria roustainguista.
A seriedade de Miranda, nesta como em
outras obras, é incontestável. Correndo o risco de ser contestado, avança ele na defesa
de idéias próprias em alguns casos, inovando senão na originalidade do assunto pelo
menos na utilização de novas designações para fatos conhecidos, como é o caso de seu
"replay", nome que atribui ao fenômeno observado por Ernesto Bozzano em "A
Crise da Morte", a respeito das lembranças que o indivíduo repassa no instante da
desencarnação.
Seu pensamento é de que "o
historiador ou historiógrafo não deve imaginar fatos inexistentes para preencher lacunas
ou justificar a "sua" filosofia da História. Deve limitar-se a narrar os fatos,
tal como se apresentam na documentação existente ou na melhor e mais verossímil
tradição".(2)
Ao lado de sua farta produção na linha
da reencarnação, Miranda revela-se igualmente interessado nos fatos mediúnicos,
privilegiado que foi pela convivência com alguns médiuns férteis em material de
análise. Sua capacidade de registrar as informações obtidas por esta via, bem como de
ampliá-las com pesquisas bibliográficas, permitiu-lhe escrever inúmeros livros, numa
relação de que desponta a série Histórias que os Espíritos Contaram - nada menos de
cinco volumes, três dos quais publiquei pela Correio Fraterno: A Dama da Noite, A Irmã
do Vizir e O Exilado. Nestas obras surpreende o fato do autor trabalhar com a regressão
de memória nos espíritos manifestantes.
Esta relação íntima com o plano
invisível, que o autor diz ter durado algumas décadas em ambiente apartado do centro
espírita, principiou por uma constatação: "Ao iniciar-se a tarefa, o conceito que
eu formulava acerca dos espíritos era o dos livros que estudara durante o período de
instrução e formação. Para mim, seriam entidades que, de certa forma, transcendiam a
condição humana, quase como abstrações vivas, situadas numa dimensão que meus
sentidos não alcançavam. Mas não era nada disso, os espíritos são gente como a gente!
Sofrem, amam, riem e choram. Experimentam aflições, desalentos, alegrias, esperanças,
tudo igual".(3)
Também aqui, o material colhido por
Miranda vai servir para as diversas outras obras que escreve, como é o caso, por exemplo,
do livro Condomínio Espiritual, em que penetra com certa ousadia no terreno das ciências
psicológicas, analisa a Síndrome da Personalidade Múltipla (SPM) e apresenta
conclusões do tipo: "Se o leitor estiver a perguntar-se por que razão entra em cena
a mediunidade nesta discussão, devo dizer-lhe que, a ser legítima a proposta de que são
autônomas as personalidades que integram o quadro da chamada grande histeria (SPM), é de
pressupor-se no paciente faculdades mediúnicas mais ou menos indisciplinadas, mas
atuantes, que permitem não apenas o acoplamento de outras individualidades ao seu
psiquismo, como manifestações de tais entidades através de seu sistema
psicossomático" (pág. 26). Para deixar ainda mais claro o seu pensamento, Miranda
afirma: "Pela minha ótica pessoal, a SPM não seria psicose nem neurose, mas
faculdade mediúnica em exercício descontrolado" (pág. 252).
Ainda no plano das vidas sucessivas,
Miranda acredita ser a reencarnação de um dos fiéis colaboradores de Martinho Lutero ao
tempo da Reforma, tendo por esta personalidade uma inusitada admiração. Seus estudos
sobre vidas anteriores incluem Lutero (este seria a reencarnação de Paulo). Isto talvez
explique, entre outras coisas, o também grande interesse de Miranda pela teologia e, em
especial, o Cristianismo, valendo destacar aí os dois volumes de As Marcas do Cristo e
ainda Cristianismo: A Mensagem Esquecida.
Não se pode, portanto, deixar de
mencionar neste ponto duas coisas: sendo afeito ao estudo da teologia, Miranda não se
mostra um místico do tipo comum; apesar disso, é francamente partidário do aspecto
religioso do Espiritismo, revelando-se aqui um dos poucos momentos de sua obra em que é
contundente: "O Espiritismo está coerente com essa mensagem imortal, e, por isso,
implantou-se tão solidamente sobre alicerce de três "pilotis": ciência,
filosofia e religião. Hoje, examinando os fatos do ponto de vista privilegiado da
perspectiva, sabemos que o suporte religioso é o mais importante dos três".(4)
Segue, portanto, a linha emanuelina, em que não se contenta apenas em apontar sua visão,
mas destaca o que entende ser o aspecto primordial: o religioso. Eis que o confirma:
"O Espiritismo (...) se resume, em última instância, em uma proposta clara e
objetiva de esforço pessoal evolutivo para substituir religiões salvacionistas,
dogmáticas e irracionais. Fé racionalizada, purificada e sustentada pela
experimentação, continua sendo fé, mais do que nunca. Se isto não é religião, que
seria, afinal?".(5)
Para finalizar, alguns aspectos curiosos
em Hermínio Miranda:
1. Ele não é um escritor que se poderia
dizer popular. Conquanto em alguns instantes demonstre intenções nessa direção, sua
linguagem o trai, seu estilo é denso e portador de uma seriedade do tipo que não se
permite, leves que sejam, algumas pitadas de jocosidade. Às vezes tenta, mas não logra
sucesso. Por isso, seria interessante analisar a razão da excelente vendagem de seus
livros;
2. Miranda abusa das conceituações e
dos esclarecimentos tendo por base os dicionários e enciclopédias. Tem-se a impressão
de que escreve com o "Aurélio" e a "Britânica" ao lado, a eles
recorrendo constantemente. Isso pode significar, por exemplo, uma tendência ao didatismo,
ao mesmo tempo em que preocupação com o produto final da recepção do leitor;
3. Verifica-se, também nele, uma quase
excessiva preocupação de convencer o leitor de que não deseja modificar sua opinião
acerca de determinados aspectos especialmente ligados à crença. Ao analisar o conjunto
de sua obra, este fato se destaca com certa nitidez, contrastando com a firmeza com que
defende suas opiniões.
Notas
1. Abelardo Idalgo Magalhães em De
Kennedy ao Homem Artificial.
2. Reencarnação e Imortalidade, pág.
17.
3. As Mil Faces da Realidade Espiritual,
pág. 10.
4. As Marcas do Cristo, vol I,
Apresentação.
5. As Mil Faces da Realidade Espiritual,
pág. 271.
Bibliografia
Alquimia da Mente, 2ª ed., Lachâtre,
1994. A Dama da Noite, Correio Fraterno, 1985. A Irmã do Vizir, Correio Fraterno, 1985. A
Memória e o Tempo, 5ª ed., Lachâtre, 1996. A Reencarnação na Bíblia, Pensamento,
1999. As Marcas do Cristo, vol. I e II, 3ª ed., Feb, 1994. As Mil Faces da Realidade
Espiritual, 2ª ed., Edicel, 1994. As Sete Vidas de Fénelon, Lachâtre, 1998. Autismo,
Lachâtre, 1998. Candeias na Noite Escura, 3ª ed., Feb, 1994. Condomínio Espiritual, 3ª
ed. Fé, 1995. Cristianismo: A Mensagem Esquecida, 2ª ed. Clarim, 1998. Eu Sou Camille
Desmoulins, 3ª ed., Lachâtre, 1993. De Kennedy ao Homem Artificial, 2ª ed., Feb, 1992.
Guerrilheiros da Intolerância, Lachâtre, 1997. Histórias que os Espíritos Contaram,
4ª ed., Alvorada. Lembranças do Futuro, Lachâtre, 1995. Nas Fronteiras do Além, Feb,
1994. O Exilado, Correio Fraterno, 1985. O Que é Fenômeno Mediúnico, Correio Fraterno,
1986. Reencarnação e Imortalidade, 4ª ed., Feb, 1991. Sobrevivência e Comunicabilidade
dos Espíritos, 3ª ed., Feb, 1990. Swedenborg, uma Análise Crítica, Celd, 1991.
Obtida de http://www.espiritnet.com.br/Biografias/biogbez.htm

Deolindo Amorim
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